RESENHA SOBRE: “O HOMEM PÓS-MODERNO, RELIGIÃO E ÉTICA”
De Wilmar Luiz Barth , postado por pastora sônia pinheiro
Vivemos o tempo da novidade. O “novo” coordena, ordena e altera tudo. Se conjuga com “moderno”. É moda. É bom. É pós-moderno. Quem estuda esse fenômeno é David Harvey, no seu livro Condição Pós-moderna, publicado na França, em 1989. Segundo ele, vem ocorrendo uma mudança abissal nas práticas culturais, bem como político-econômicas desde 1972.1 Segundo o pensamento de Leonardo Boff, “a pós-modernidade participa de todos os pós-ismos (pós-histoire, pós-industrialismo, pós-estruturalismo, pós-socialismo, pós-marxismo, pós-cristianismo, etc.) com aquilo que eles têm em comum: a vontade de distanciamento de certo tipo de passado ou a recusa a certo tipo de vida e de consciência, a percepção de descontinuidade sentida e sofrida no curso comum da história, e a sensação de insegurança generalizada”.
Em poucas palavras, do “moderno” nasce a “modernidade” e esta foi transformada em
“pós-modernidade”. É um tempo de mudança, de crise, de morrer ao tradicional, de abandonar o velho e abraçar o novo, de quebrar paradigmas e estabelecer novas formas de vida e valores. É tempo de ser diferente, de inventar diferenças e conviver pacificamente com o diferente. Do “ser do contra” passamos a “amar o contrário” e, hoje, somos “neutros diante das diferenças”.
Utilizo-me de Mike Feathestone, que apresenta as seguintes pontos norteadores desse processo:
a) Movimento que se afasta das ambições universalísticas das narrativas mestras... e caminha em direção a uma ênfase no conhecimento local, na fragmentação, no sincretismo, na “alteridade” e na diferença.
b) Dissociação das hierarquias simbólicas que acarretam julgamentos canônicos de gosto e valor, indo em direção ao colapso populista da distinção entre a alta cultura e a cultura popular.
c) Tendência à estetização da vida cotidiana.
d) Descentralização do sujeito, dando lugar à fragmentação, jogo superficial de imagens, sensações e “intensidades multifrênicas”.
Em seu livro El hombre light, Enrique Rojas faz uma descrição muito realista do homem atual e que assume contornos muito negativos. Segundo ele, os produtos “light” deram origem ao homem “light” e à vida “light”, caracterizada pelo fato de que tudo está sem calorias, sem gosto ou interesse. A essência das coisas não importa, só é quente o superficial, e a vida pode ser comparada a um coquetel, onde tudo pode ser experimentado, mas tudo está desvalorizado. O homem moderno, conforme descreve Rojas, é sumamente vulnerável. Embora seja atraente, dinâmico e divertido, é um ser vazio,
sem idéias, evasivo e contraditório. Rebela-se contra todos os estilos de vida reinante. Sempre bem-informado, mas com escassa formação, perde-se no folclórico e, diante de tantas notícias, cria uma espécie de mecanismo de defesa, ficando insensível. É pragmático e se interessa por vários assuntos ao mesmo tempo. Tem uma curiosidade insaciável, porém maldirigida e que não o leva a lugar nenhum. Conhece muito bem sua área de atuação, mas não consegue fazer síntese.
Como não tem critérios sólidos, o homem light é superficial e aceita tudo. Geralmente não tem um projeto de vida e lhe interessa ter, possuir, comprar mais e consumir loucamente. Compra coisas e depois se arrepende. Fabrica sua verdade de acordo com suas preferências, escolhendo o de que gosta e rejeitando o que não lhe apetece. Exige poder “ficar a sós”, “precisa retirar-se”. Uma solidão sem rebelião pessoal e sem análise.
É frio, não acredita em quase nada, suas opiniões mudam rapidamente e deixou para trás os valores transcendentes. Busca o prazer e o bem-estar a qualquer custo, além do dinheiro. Para ele tudo é descartável, inclusive as pessoas. Passa por cima de tudo e de todos para buscar a fama, o sucesso, o triunfo. Vive unicamente para si, para seu prazer, sem restrições.
O homem moderno, conforme Rojas, não é feliz. Ele tem uma certa dose de bem-estar, tem prazeres, mas vive esvaziado da autêntica alegria. A forma suprema de prazer é a sexual, o orgasmo. Busca o imediato, a satisfação rápida e sem problemas, que a longo prazo só acumula fracassos. João Batista Libanio não deixa de expressar sua visão do jovem pósmoderno:
Melancolia, desejo, impossibilidade, acomodação. Essa seqüência marca a vida de muitos pós-modernos. Envolvem-se com a droga, Além dessas marcas, o homem moderno assume a marca da indefinição, do inconstante, da versatilidade. Carrega consigo o constante estresse, o pessimismo, o desencanto e, acima de tudo, a depressão.
Sonha com o relax, o tempo livre e quer tudo para hoje. Parece que sua única alegria e realização está na capacidade de escolha livre dentre uma infinidade de alternativas. Vive e dá asas à ficção, de diversas formas: na literatura, no cinema, na televisão ou em jogos de internet. As drogas são a forma simples e fácil de “viajar” neste mundo da fantasia.
Situada a ‘civilização do orgasmo’ na globalidade da cultura contemporânea, poder-se-á dizer que ela é caracterizada, de um lado, pela sofreguidão do gozo incontinente de todos os prazeres que a vida possa proporcionar, tendo o sexo como centro referencial e, de outro, pela carência de um ideal ético, tanto individual como coletivo, em virtude de ter-se perdido a consciência
de que o significado maior da existência consiste na oportunidade de aperfeiçoamento espiritual que ela proporciona. (REALE, Miguel. Paradigmas da cultura contemporânea. São Paulo: Editora Saraiva, 1996, p. 135.)
Ainda segundo Lipovetsky, o “self-interest” é a única lei assumida e o dever passou a ser escrito em letras minúsculas. O “é necessário” cedeu seu passo à felicidade, ao estímulo dos sentidos e o proibido somente vale quando está no corpo da lei escrita. Ao mesmo tempo ele chama a atenção: não nos enganemos: os gritos pelo retorno da ética não passam de um grito, mas não significam uma renúncia a si próprio ou o desejo de obrigações em favor dos outros. Esta é a sociedade do “pós-dever”, na qual os direitos subjetivos dominam os mandamentos imperativos. Ele afirma: “Queremos o respeito da ética sem mutilação de nós mesmos e sem obrigações difíceis: o espírito da responsabilidade, não o dever incondicional. Por trás das liturgias do dever demiúrgico, chegamos ao minimalismo ético”. O protagonismo humano tende a estabelecer um novo ordenamento moral. Observe-se, no entanto, que também o inverso pode se fazer sentir, especialmente naquelas culturas e setores nos quais a nova mentalidade não encontra aceitação: trata-se da tendência a um fechamento completo e aberta oposição aos novos valores, chegando, às vezes, a um retorno aos velhos e tradicionais estilos de vida.
A moral cristã, a partir da sua compreensão e valores, estabelece alguns desajustes neste esquema moral do homem moderno:
a) moral sem pecado: o generalizar-se do estilo de vida que despreza o sentido da culpa e do pecado;
b) moral de situação: a implantação do relativismo que estabelece as circunstâncias, a subjetividade e a privatização como caminho de realização moral;
c) moral neutra: neutra: total dissociação entre religião e ética que esvazia tanto a moral quanto a própria fé;
d) moral pragmática e utilitarista: estabelecimento de valores somente a partir de uma necessidade prática e em vista da própria utilidade;
e) moral hedonista: a tendência a identificar o valor ético a partir do prazer e satisfação que produz.
O retorno ao sagrado, ao esotérico, ao demoníaco e o culto ao mal são fenômenos da pós-modernidade. Formas religiosas e crendices consideradas ultrapassadas e infantis retornaram com novas forças e novos ares. Pelas avenidas, bairros, nas cidades e mesmo em pequenas cidades do interior, se vêem símbolos, ritos, imagens, pessoas e igrejas de credos diferentes. Há situações, algumas engraçadas e outras conflitivas, nas quais numa mesma família se encontram vários credos
e tendências religiosas. Este fenômeno não se restringe a uma camada social. São ricos e pobres, doentes e sãos, professores universitários e serventes de pedreiro. Na busca do sentido da vida, cria-se o deus e a religião pessoal, conforme se observa no título do livro do teólogo cristão Walter Kasper: “Jesus Cristo sim, Igreja não”. O “boom” religioso revela isto: seitas, cultos, esoterismos,filosofias orientais, yoga, etc. O homem moderno não serve a Deus, mas se faz servir dele. Culto e Igreja, na medida do necessário e “quando sobra um tempinho”, afinal, tudo o que é demais, faz mal. São ofertas religiosas em anúncios de jornais, rádios, outdoors, panfletos em esquinas movimentadas, liquidação de bênçãos e oração de cura pela metade do preço. O missionário que faz milagres, o “professor” que lê o futuro, a “irmã” que dá conselhos, o padre que faz showmissa, o mestre que faz curso de meditação.
O importante não é o que se crê e nem a medida desta crença, mas como forma de identificação com alguns outros e de autonomia, como demonstração da autonomia pessoal que se demonstra até mesmo na capacidade de comandar o próprio Deus.
CONCLUSÃO
O homem pósmoderno é reconhecido como vencedor por se colocar em evidência por satisfazer seus desejos a qualquer custo. Busca sensações novas e excitantes, mesmo que passageiro, mas sem compromisso amoroso, sem vínculo emocional. Sua fonte de prazer é o sexo e o sucesso. Seu dogma de prazer erige cultos, ritos e símbolos ligados a pornografia, vídeos, serviços telefônicos, festas que se convertem em grandes negócios que exploram os instintos sexuais apelativos. Para este homem nada é absoluto e sim relativo, tudo oscila com o que se vive no momento.
Na vida deste homem há desperdicio, pois o consumismo busca a valorização da imagem de homem bem sucedido. Sua individualidade tenta manter seu alto valor profissional marcada de uma vida vazia, não sentem medo, angústia, nem se abalam com tragédia.
O perfil deste homem moderno é de inovação, mudança social, rodeado de direitos, mas voltado em primeiro lugar para si mesmo. Seu olhar visionário o lança para o futuro e suas responsabilidades. Este homem se senti parte do cosmo, do universo, capitalista, socialista com ideias de expressão em todos os sentidos.
O que resta fazer é a recuperação do verdadeiro sentido do amor a si, ao outro, a Deus. Libertar-se da individualidade, usar de coerência em sua fala e sua atitude diante do outro. Utilizar-se adequadamente as mídias, valorizando a boa informação e recusando os estímulos ligados a pornografia e rituais religiosos inadequados a formação emocional, espiritual e até profissional.
Apropriar-se de um novo saber solidário, coprometido com gerações futuras, aprendendo e ensinando o convívio social. Valorizar e recuperar o culto a Deus respeitando o outro, o divino, Deixar o culto ao corpo, abandonando a banalização da sexualidade, mas reconstruindo a graça da vida, do homem capaz de amar e ser amado como também cultivar o espírito com a adoração a Deus.
Aquele que renuncia os lucros abusivos e estimula a valorização profissional, a solidariedade, planos e projetos que promovam a realização profissional e financeira do outro. Trazendo ao outro o bem estar que se reverterá em uma busca saudável e autêntica para o bem do outro. Estas experiências de conforto e confiança conduzirá este homem a Deus, pois aprenderá a depender do grupo para realizar grandes feitos. Isto levará este homem na bisca da verdadeira fé, aceitando e respeitando o limite da experiência religiosa para si e para o outro celebrando com alegria a fé verdadeira em Deus.
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